Disclaimer – 2024

Mulher loira diante de grande janela para uma paisagem desfocada, e uma pia cheia de pratos lavados, queima um livro sobre a pia, com o rosto votado para nós com expressão de medo
Tempo aproximado de leitura: 3 minutos -

Estou revendo esta série para completar esta resenha.

Mas pelo que me lembre esta é uma daquelas estórias em que ficamos nos perguntando o tempo todo, por que ela não fala? Por que não simplesmente fala? Mas depois me dei conta que essa sensação só existe pra quem está revendo… e sim esta é uma série que dá vontade de recomeçar assim que termina.

Assim que comecei a rever, lembrei que em um momento bem mais adiante, a Catherine diz não perdoar um personagem, por um motivo específico, e ali sintetiza tudo que se pode pensar sobre misoginia, e a objetificação feminina neste contexto, e é uma lente para o que vivemos, nossas experiências em sociedade, não diferem muito.

A minissérie Disclaimer, de 2024, escrita e dirigida por Alfonso Cuarón, parte de uma premissa aparentemente íntima, uma jornalista respeitada vê seu passado remexido por uma narrativa que a transforma em personagem de escândalo. A produção da Apple TV+ é estrelada por Cate Blanchett e Kevin Kline e se organiza como um thriller psicológico em sete capítulos, construído em torno de memória, culpa, reputação e disputa pela verdade.

Sob o ponto de vista do feminismo, Disclaimer é especialmente interessante porque mostra como a violência contra a mulher não acontece apenas no corpo, mas também na linguagem, na família, na imprensa, na reputação pública e nas instituições que administram a “verdade”. Catherine não é julgada apenas pelo que fez ou deixou de fazer, mas pelo lugar que ocupa: mulher bem-sucedida, mãe, esposa, profissional admirada e, justamente por isso, alvo perfeito de punição moral.

A série revela como a sociedade transforma a mulher em propriedade simbólica. Seu corpo é visto como prova, sua sexualidade vira acusação, como coisa suja, imprópria, sua maternidade negligência e seu silêncio resulta em culpa.

O homem, mesmo quando movido por luto, ressentimento ou fantasia, encontra meios de narrar, publicar, distribuir e legitimar sua versão. Já a mulher precisa lutar não apenas contra uma mentira, mas contra uma estrutura inteira preparada desacreditá-la.

Como expectadores, somos chamados a julgá-la também, em diversos momentos, a narrativa nos conduz como acontece no nosso cotidiano, quando versões de pontos de vistas tendenciosos podem nos convencer de alguma “verdade”.

Creio que independente da moral dessa narrativa, essa experiência serve para nos lembrar de não sermos tão ligeiros em julgar…

Ao meu ver Disclaimer funciona como uma obra poderosa sobre a disputa pela narrativa. E, nessa disputa, sua pergunta mais incômoda talvez seja: quantas mulheres foram destruídas não pelo que aconteceu, mas pela versão que os outros conseguiram vender sobre elas?

Cenas do filme figuram por tras da palavra DISCLAIMER

SINOPSE: Segredos obscuros começam a ser descortinados enquanto somos conduzidos pela narrativa de uma escritora que conta a tragédia de sua família e acusa uma jovem mulher. A versão madura dessa jovem é julgada e punida enquanto assistimos sua luta por manter os segredos e a reputação.

ONDE ASSISTIR: APPLE TV

Ficha Técnica

  • Título Original: Disclaimer
  • Título no Brasil: Difamação
  • Gênero: Drama, Mistério, Suspense
  • Criador e Diretor: Alfonso Cuarón
  • Elenco Principal: Cate Blanchett, Kevin Kline, Sacha Baron Cohen, Kodi Smit-McPhee
  • Baseado em: Romance homônimo de Renée Knight
  • Episódios: 7 partes (minissérie)
  • Plataforma de Streaming: Apple TV+
  • Ano de Lançamento: 2024

Se esse tipode estória com excelentes personagens femininas te interessa, considere ver também, esse filme que temos aqui uma resenha.

Tenho 54 anos, sou mãe de um jovem trans e venho de uma linhagem de mulheres pardas que me ensinaram resistência. Sou da comunicação, artista por natureza e sempre ligada às artes. Convivo também com meu filho, artista visual, que apurou meu olhar técnico e sensível. Hoje assumo o feminismo de forma consciente, em grupo e em prática. Como mulher madura, mãe e parte de uma história racializada, assisto ao audiovisual buscando representatividade, silêncios, apagamentos e potência.

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