Os Homens que Não Amavam as Mulheres – 2009

Os Homens que não amavam as mulheres - Lisbeth e o jornalista próximos de uma lareira
Tempo aproximado de leitura: 9 minutos -

Vou falar aqui não somente sobre o filme “Os homens que não amavam as mulheres”, mas sobre a trilogia da qual ele faz parte.

A Trilogia Millennium, baseada nos livros de Stieg Larsson, destaca-se por duas versões cinematográficas: a versão sueca original toda lançada no ano de 2009, estrelando Noomi Rapace como a haker fodona Lisbeth Salander. E a versão americana lançada entre 2011 e 2018, estrelando Rooney Mara como Salander e o Daniel Craig (o mais recente Bond) como o jornalista.

Versão Sueca OriginalTodos de 2009

  • Os Homens que Não Amavam as Mulheres
  • A Menina que Brincava com Fogo
  • A Rainha do Castelo de Ar 
    Título inglês – The Girl Who Kicked the Hornets’ Nest (A Garota que Chutou o Vespeiro)

Nota: A trilogia completa foi lançada em 2009. Nos três filmes suecos, Noomi Rapace e Michael Nyqvist estão nos papéis principais.

Versão Americana – Somente dois filmes

  • 2011 – Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres
    Título em inglês: The Girl with the Dragon Tattoo (A Garota com Tatuagem de Dragão)
  • 2018 – Millennium: A Garota na Teia de Aranha

Um pequeno resumo de cada filmes (sem spoiler)

tres fotos das atrizes que representam a Lisbeth Salander
Salander dos filmes Suecos / Salander do primeiro filme americano e Salander do segundo filme americano.

O que todos têm em comum:

A construção dos personagens é um dos grandes méritos do roteiro: aos poucos, ele revela traumas, motivações e camadas emocionais que ampliam nossa compreensão sobre cada um deles, com momentos de pura tensão e outros de pura catarse.

1. Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Uma atmosfera fria, densa e inquietante conduz a narrativa do filme que inicia apresentando o desaparecimento de uma jovem pertencente a uma poderosa família sueca como ponto de partida para uma investigação marcada por segredos e relações de poder. Para cuidar do caso, entra em cena o controverso jornalista Mikael Blomkvist, que acaba contando com a ajuda de Lisbeth Salander, uma hacker brilhante, figura andrógina e profundamente singular.

Sob um olhar feminista, o filme se destaca por expor com dureza a violência estrutural contra as mulheres, sem tratar esse tema como mero pano de fundo decorativo. Lisbeth não é escrita como a “heroína convencional”, nem como vítima passiva: ela é complexa, inteligente e imprevisível.

Sua presença rompe padrões de feminilidade esperados pelo cinema comercial e torna visível uma mulher que resiste ao controle masculino, institucional e sexual.

Ao mesmo tempo, o filme provoca discussões importantes sobre misoginia, tutela, abuso de poder e sobre como a violência contra mulheres costuma ser naturalizada dentro de famílias e instituições.

Alerta de Gatilhos

O filme mostra cenas inquietantes de abusos e estupro com efeitos gráficos mesmo. Mas para o bem da audiência, tudo nos leva à catarse no fim.


2. A Menina que Brincava com Fogo

Em A Menina que Brincava com Fogo, a narrativa se torna mais íntima e mais tensa. O foco se desloca para Lisbeth Salander, que passa a ocupar o centro dramático da história de maneira ainda mais contundente. Quando uma nova trama criminal explode ao seu redor, o filme mergulha em seu passado e amplia o universo de conspirações, violências e manipulações que cercam sua trajetória. Ao mesmo tempo em que mantém o suspense policial, o roteiro aprofunda a dimensão pessoal da personagem e reforça seu isolamento diante de um mundo que insiste em interpretá-la de forma distorcida.

Pela lente feminista, este talvez seja o filme em que a crítica ao controle patriarcal ganha contornos mais explícitos. Lisbeth surge como uma mulher punida não apenas por aquilo que viveu, mas também por não corresponder ao modelo de feminilidade dócil, complacente, domesticável. O longa problematiza o modo como instituições médicas, jurídicas e policiais podem funcionar como extensões da violência de gênero, especialmente quando classificam mulheres dissidentes como perigosas, inadequadas ou incapazes.

A força do filme está justamente em mostrar que o problema não é apenas um agressor isolado, mas uma engrenagem inteira que se beneficia da deslegitimação da voz feminina.

O filme termina de forma dramática em uma cena que faz a gente querer sair correndo pra ver o próximo…


3. A Rainha do Castelo de Ar

A Rainha do Castelo de Ar fecha a trilogia ampliando a dimensão política da história. O suspense continua presente, mas agora a narrativa se concentra mais diretamente nas estruturas de poder por trás dos acontecimentos anteriores. O filme acompanha o desenrolar das consequências que recaem sobre Lisbeth e transforma sua luta pessoal em embate contra forças institucionais muito maiores do que indivíduos isolados. Há menos mistério investigativo no sentido clássico e mais tensão estratégica, o que faz do desfecho uma espécie de confronto entre memória, verdade e autoridade.

Do ponto de vista feminista, o terceiro filme é particularmente interessante porque evidencia a cumplicidade entre Estado, violência e silenciamento das mulheres. Aqui, a saga deixa ainda mais claro que a opressão de gênero não é apenas doméstica ou privada: ela pode ser burocrática, legal, psiquiátrica e estatal. Lisbeth permanece como figura de resistência radical, alguém que desafia a tentativa de ser reduzida a diagnóstico, objeto ou caso a ser administrado. O filme reforça, assim, uma crítica poderosa à forma como mulheres que se manifestam, digamos… fora das normas são tratadas como ameaça, e não como sujeitas de sua própria história.

Versão americana

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011)

Preciso comentar a abertura desse longa, pois é do tipo memorável, visualmente impactante e abre o filme símbolos de objetificação, o poder das tecnologias, as ambições, cobiças, silenciamentos, violência e medo. Para ambientar ainda mais tem de fundo a música Immigrant Song de Led Zeppelin, imagina só… Aliás lembra as aberturas de filmes que o Daniel Craig tem feito ultimamente, James Bond.

Na versão de David Fincher, a mesma trama ganha um tratamento visual ainda mais sombrio e cortante. A investigação sobre o desaparecimento de uma jovem ligada a uma família rica continua sendo o motor da história, mas o filme enfatiza mais fortemente a atmosfera de paranoia, decadência moral e violência latente. Daniel Craig interpreta Mikael Blomkvist, enquanto Rooney Mara constrói uma Lisbeth Salander mais silenciosa, ferida e ao mesmo tempo feroz. O resultado é um thriller estilizado, inquietante e de forte impacto psicológico. Assim como a Salander da versão original, a figura andrógina aqui é ainda mais anti-feminina com um ar que parece querer repelir o temerário olhar masculino.

Sob uma leitura feminista, esta adaptação mantém o núcleo crítico da obra ao expor misoginia, abuso sexual e violência sistêmicas. A diferença está no tom: Fincher transforma esse universo em uma experiência mais glacial e estética, o que para alguns espectadores intensifica o horror, enquanto para outros pode criar certa distância emocional.

Ainda assim, Lisbeth segue como figura central de ruptura, uma personagem que não cabe em categorias fáceis e cuja inteligência desafia tanto o poder masculino quanto a tendência do cinema de suavizar mulheres traumátizadas para torná-las mais “aceitáveis”. Rooney Mara entrega uma personagem menos explosiva que a de Noomi Rapace, mas igualmente perturbadora em sua recusa de se dobrar e com sua aparência fora dos padrões.

Millennium: A Garota na Teia de Aranha (2018)

A Garota na Teia de Aranha não adapta a trilogia original de Stieg Larsson, mas retoma a personagem Lisbeth Salander em outra fase e em outro registro narrativo, agora mais próximo do thriller de ação internacional. Com Claire Foy no papel principal, o filme apresenta uma Lisbeth mais diretamente associada à figura da vigilante tecnológica. A trama envolve espionagem, segredos digitais e ameaças globais, dando à personagem um alcance quase mítico. O suspense permanece, mas o foco recai menos sobre investigação psicológica e mais sobre perseguição, estratégia e sobrevivência.

Lisbete Salander do filme 2 americano, apontando arma

Num olhar feminista, o filme preserva a ideia de Lisbeth como mulher que reage à violência e recusa submissão, mas se aproxima mais da ação do que um apelo ao ativismo. Isso enfraquece um pouco a crítica mais cortante à misoginia institucional presente na trilogia sueca, embora mantenha a potência simbólica de uma protagonista feminina marcada por trauma, sua inteligência e autonomia brilhante e radical. Claire Foy entrega uma Lisbeth mais contida e calculada, menos anárquica do que as versões anteriores, o que pode ser lido tanto como atualização quanto como suavização da personagem.

Ao meu ver criaram um versão da Lisbeth menos Punk andrógino e mais moça traumatizada vitimizada… Embora exiba toda sua potência de independência e capacidades vigorosas, ao menos não choca tanto em imagem como as outras duas personagens que fogem completamente ao padrão cis-heteronormativos.


ONDE ASSISTIR:

A versão original: (Grátis dublados no Youtube) FILME 1 | FILME 2 | FILME 3

A versão americana: Filme 1 para alugar no Youtube, e o filmes dois na Amazon Prime

Aqui o trailler americano

Fichas técnicas das duas versões

1. Trilogia Millennium Sueca (Original, 2009) 

  • Elenco Principal: Noomi Rapace (Lisbeth Salander), Michael Nyqvist (Mikael Blomkvist).
  • Filme 1: Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (Män som hatar kvinnor)
    • Diretor: Niels Arden Oplev.
    • Ano: 2009.
    • Sinopse: O jornalista Mikael Blomkvist e a hacker Lisbeth Salander investigam o desaparecimento de Harriet Vanger.
  • Filme 2: Millennium 2 – A Menina que Brincava com Fogo (Flickan som lekte med elden)
    • Diretor: Daniel Alfredson.
    • Ano: 2009.
  • Filme 3: Millennium 3 – A Rainha do Castelo de Ar (Luftslottet som sprängdes)
    • Diretor: Daniel Alfredson.
    • Ano: 2009. YouTube +4

2. Versão Americana (Sony Pictures)

  • Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo – 2011)
    • Diretor: David Fincher.
    • Elenco: Rooney Mara (Lisbeth Salander), Daniel Craig (Mikael Blomkvist), Christopher Plummer, Robin Wright.
    • Destaque: Indicado ao Oscar, conhecido pela direção sofisticada e trilha sonora marcante.
  • Millennium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl in the Spider’s Web – 2018)
    • Diretor: Fede Álvarez.
    • Elenco: Claire Foy (Lisbeth Salander), Sverrir Gudnason (Mikael Blomkvist).
    • Nota: Adaptação do quarto livro (primeiro escrito por David Lagercrantz após a morte de Larsson).

 Participação feminina nas produções:

Em todas as adaptações da Trilogia Millennium (tanto a sueca quanto as americanas), há uma presença feminina significativa em cargos estratégicos de produção, roteiro e figurino, embora a direção principal e a autoria dos livros originais sejam masculinas. 

Versão Sueca (Filmes e Minissérie)

A trilogia original sueca (2009), que foi expandida para uma minissérie de 6 episódios em 2010, contou com mulheres em papéis de liderança na produção: 

  • Produção: Anni Faurbye Fernandez atuou como produtora executiva em todos os episódios da minissérie e nos filmes originais.
  • Autoria: Embora os livros tenham sido escritos por Stieg Larsson, a série literária foi continuada posteriormente por Karin Smirnoff, a primeira mulher a escrever um volume oficial da saga (o sétimo livro). 

Versão Americana (2011) – The Girl with the Dragon Tattoo 

No filme dirigido por David Fincher, nomes femininos ocuparam cargos de altíssimo escalão na ficha técnica:

  • Produção: Ceán Chaffin foi uma das produtoras principais do longa, e Anni Faurbye Fernandez retornou como produtora executiva.
  • Direção de Elenco: Laray Mayfield foi a responsável pela escolha do elenco, incluindo a emblemática seleção de Rooney Mara.
  • Figurino: Trish Summerville assinou o figurino, sendo responsável por criar o visual icônico de Lisbeth Salander para o público global. 

Versão Americana (2018) – Millennium: A Garota na Teia de Aranha

Este filme, que funciona como um soft reboot, teve um marketing focado no fortalecimento da equipe feminina nos bastidores:

  • Produção: Elizabeth Cantillon e Amy Pascal (ex-chefe da Sony) estiveram à frente da produção.
  • Maquiagem e Cabelo: A equipe foi liderada por mulheres como Heike Merker (designer de maquiagem e cabelo), essencial para a transformação visual da protagonista Claire Foy. 

Indicação de filme ou série similar

Se te interesssa esse tipo de heroína ferida e potente, considere ver o filme Olga que temos resenha aqui. Outro exemplo de heroína ferida, traumatizada está no filmes Men também sugerido aqui.

Já se te anima séries de mistério e suspense com protagonistas femininas fortes, não pode perder “Aqueles que Matam”

Tenho 54 anos, sou mãe de um jovem trans e venho de uma linhagem de mulheres pardas que me ensinaram resistência. Sou da comunicação, artista por natureza e sempre ligada às artes. Convivo também com meu filho, artista visual, que apurou meu olhar técnico e sensível. Hoje assumo o feminismo de forma consciente, em grupo e em prática. Como mulher madura, mãe e parte de uma história racializada, assisto ao audiovisual buscando representatividade, silêncios, apagamentos e potência.

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